Pode um desejo imenso
arder no peito tanto
que à branda e a viva alma o fogo intenso
lhe gaste as nódoas do terreno manto,
e purifique em tanta alteza o espírito
com olhos imortais
que faz que leia mais do que vê escrito [...]
Camões
Mosaico Abstrato
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Monólogo (claro) da contemporainedade
MINHA VIDA MOVIMENTADA É
uma xícara de café (leia-se copo descartável) e um sachê de chá de camomila. Entre estes, as energias protéico-carboidratais do meu movimento pendular antissazonal. Me falta o tempero do sabor, digo, do amor. Uh, uma música a la Frank Sinatra, perdoe-me Michael Bublè. I como me cerram os vincos na testa e a moldura do chão, estremece. Hora. Pois não há nada que enterneça a vida na camelópole, não há nada que eternize o ciclo dos gases fluentes. Não há nada. Nada mais que a euforia agoniante de não saber não EXACERBAR.
segunda-feira, 19 de março de 2012
[...] tenho em mim todos os sonhos do mundo.
[...]
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido [...]
Fernando Pessoa (pseudônimo Álvaro de Campos)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Chacal, também conservo as "barbas" de molho!
OSSOS DO OFÍCIO
sempre deixei as barbas de molho
porque barbeiro nenhum me ensinou
como manejar o fio da navalha
sempre tive a pulga atrás da orelha
porque nenhum otorrino me disse
como se fala aos ouvidos das pessoas
sou um cara grilado
um péssimo marido
nove anos de poesia
me renderam apenas
um circo de pulgas
e as barbas mais límpidas da Turquia
CHACAL (Ricardo de Carvalho)
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
(Belíssimo) Poema de Cruz e Sousa
Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.
Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noctâmbulos
à fresca exalação salúbrica das flores...
E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor — na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.
Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!...
Cruz e Sousa - poema publicado em "O livro derradeiro"
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.
Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noctâmbulos
à fresca exalação salúbrica das flores...
E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor — na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.
Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!...
Cruz e Sousa - poema publicado em "O livro derradeiro"
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Sobre a causalidade, digo, a casualidade após o amor
Existem coisas entre eles, resolvidas ou não, más ou boas, que jamais deixarão a casualidade invadir o abismo que os separa. Casual é encontrar um amigo qualquer, um parente, casual é uma volta na quadra, uma ida à padaria.
Casual, caso, acaso, são termos que não cabem na lacuna entre estes dois, e isso porque qualquer frase que saia da boca deles logo se transforma em um discurso consagrado quando estão face a face: cada vírgula é um parágrafo, cada final de período é uma nova página. As palavras são seletas e camuflam-se de um branco gélido, impalpável, querendo-se impessoal.
Acostumaram-se tanto a fingir que às vezes se esquecem da atuação e acreditam que tudo é como no discurso, ou que tudo é normal. Normal e norma, também não cabem aqui. Normal é comportar-se “civilizadamente” e cumprimentar o porteiro acenando com a cabeça, normal é dar os parabéns a uma tia distante no dia do seu aniversário de 68 anos, mesmo que não se tenha o que dizer, só por educação. Este despeito maquiado de indiferença não chega nem a ser comum.
É importantíssimo que um se desenhe para o outro com contornos tão fortes e claros, que não permitam borrar a imagem. É como cartaz de protagonista de filme, moldado em papelão: belo e perfeito, embora superficial.
A ilusão constrói máscaras, sim, sabe-se bem que uma mágoa sufocada embaraça tanto quanto a euforia e a paixão infinda. Mas é claro, claro, que é ela sempre tão difusa, com os olhos oblíquos de Capitu. Ele sempre tão bem resolvido e inabalável.
Assim, continuam a pisar firme como quem precisa mostrar que tem certeza de algo. O olhar permanece vidrado. Julgam-se distantes demais para ver com clareza, apesar dos fortes contornos na imagem. Ignoram que a proximidade excessiva é o que embaça a visão.
Bruna.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Deeply
Eu me apaixonei por você, como é de uma ariana se apaixonar em uma noite, uma tarde, um domingo. Eu acho que me apaixonei pelo seu jeito calmo e seguro de se aproximar, tão oposto de mim, da minha ansiedade, da minha fome de lhe tomar. Eu tenho certeza que eu me encantei com o teu olhar de menino, o teu sorriso amigo e o teu abraço forte de homem grande. Eu acho que me encaixei no teu beijo, no teu gosto, no teu rosto, eu me encontrei com teu olhar, me impregnei no teu cheiro. Se há distâncias que nos separam abruptamente elas hão de se dissipar pela folha em branco que existe em nós, ela é um livro inteiro, é uma história pra te contar, pra te escrever. Eu, com toda a certeza do mundo, me apaixonei por você sem esforço algum pelos teus gestos simples que pra mim são grandes demais. As tuas mãos que me serviram, que me respeitaram, que me deram tua gentileza de matar a minha sede (literalmente). Os teus braços que me envolveram quando eu pensei que seria fácil cair em mais uma armadilha de um garoto qualquer, os teus olhos que não se desviavam de mim, a tua paciência, o teu zelo por alguém que você quase nem conhecia. Eu me admirei de você, me assustei com você e parece até que você nem existe. Eu quase que tenho medo de olhar pro meu telefone e pensar que ele pode não tocar tão cedo. A tua sinceridade de bom moço, e o teu atrevimento que me arrepia a nuca, me fazem querer te ver tão cedo quanto eu puder. A tua simplicidade, o teu sorriso. Os teus lábios tão macios, tão gentios, tão sedentos dos meus, tão feitos pros meus. A nossa respiração ensaiada, simultânea, e tão junta, tão juntos, tão longe. A tua mão na minha, é uma imagem tão concreta pra mim, que me custa acreditar, mas eu posso sentir.
Bruna.
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